sexta-feira, 31 de julho de 2015

“O Estranho Mundo de Jack” e “Frozen”




         Quero deixar claro, antes de começar, que minha intenção nesse post não é fazer uma crítica direta a nenhum dos filmes citados no título, mas, sim, criticar o comportamento preconceituoso de certas pessoas. Como isso aqui não é uma revista imparcial, não vou evitar exprimir opiniões pessoais, mas quero frisar que toda obra de arte tem seu encanto, por mais comercial que tenha se tornado.
         Vamos começar explicando o porquê desta crítica. Recentemente, eu assisti, pela primeira vez, ao filme “O Estranho Mundo de Jack” (ou, originalmente, como eu prefiro chamá-lo, “The Nightmare Before Christmas”, que significa “O pesadelo antes do Natal”, título perfeitamente traduzível e revoltantemente perdido). Sim, é um filme antigo (da década de 90, para ser mais exata) e eu sei que já devia tê-lo visto antes, podem me chamar de atrasada. Na verdade, faz um tempo que eu venho tentando assisti-lo, mas não o encontrei na locadora da cidade. Então, assisti online. O fiz totalmente em inglês, o que me ajudou a perceber o quão bom o filme é (pois as músicas estão em sua qualidade original). Sim, o filme é muito bom, e não só pela sua qualidade de animação, nem pelas músicas (lindas, por sinal) que o recheiam, mas pela mensagem que ele passa. Quem já viu o filme (espero) entenderá do que estou falando, mas, para quem não assistiu, vou explicar (vou evitar spoillers, mas sugiro assistirem ao filme antes de lerem isso):
         Jack, ao longo do filme, tenta trazer algo para sua cidade que seus habitantes não compreendem. Ele acaba cometendo um erro, mas não é intencional. O ponto aonde quero chegar é: Jack, mesmo insatisfeito com sua situação atual, não foge dos problemas, não se vitimiza (apesar de ter uma canção ou duas relativamente dramáticas). Ele encontra algo que pode fazê-lo sentir melhor e tenta colocar esse “algo” em prática. E mesmo quando não dá certo, ele tenta ver o lado bom da coisa (depois de se culpar um pouco), lembra quem ele realmente é, e VOLTA PARA CONSERTAR A PRÓPRIA CAGADA. Sim, eu grifei isso porque é importante. Não se esqueçam disso.
         Agora, recentemente, eu assistia a um vídeo no youtube de uma das músicas do filme, e fui ler os comentários (um grande vício). Um deles comparava O Estranho Mundo de Jack com Frozen – Uma Aventura Congelante, coisa que eu já havia feito internamente, pois estou ligeiramente revoltada com o sucesso inexplicável do filme e, principalmente, de sua música com nada de realmente especial, “Let it Go”. No comentário que eu li, a pessoa defendia O Estranho mundo de Jack, com o argumento de que as músicas são muito melhores (argumento com o qual eu concordo veementemente). Certo, não bastando ler os comentários, eu leio as respostas deles. E uma delas dizia que O Estranho Mundo de Jack daria pesadelos às crianças, e que o “Jack magrelo e assustador” (traduzindo livremente o comentário em inglês) cantava muito para o gosto da pessoa. E dizia que não era um grande fã de “espíritos” e que preferia que seus filhos assistissem a Frozen em vez de a esse filme. Nem preciso dizer o quão irritada fiquei. Bem, por uma questão de gosto, esse comentário não me irritaria tanto, se o argumento usado pela pessoa fosse apenas de que lhe agradava mais o filme Frozen, e não um preconceito explícito com filmes “fora do padrão”, e com “espíritos”.
É aí que vem a questão: Frozen é um filme fofinho, com uma boa qualidade de animação, etc, tem aquela mensagem no final do “ato de amor verdadeiro” ser o amor fraternal (uma boa mensagem para as crianças), mas há a personagem principal, que ficou como a “Diva” do filme, Elsa, cujo comportamento na maior parte da história é bem covarde e adolescente, vamos combinar. Ela fica a vida toda trancada no próprio quarto por medo de machucar a irmã (de novo). Até aí é compreensível, mas, ao invés de aprender a controlar seu poder e a usá-lo para o bem, ela apenas se faz de vítima. Se fossem apenas um ou dois anos, seria compreensível, mas a vida toda! Ela ficou trancada no quarto a vida toda! E, depois, quando sua coroação vai para o brejo porque ela não aprendeu a controlar os próprios poderes, ela foge covardemente, deixando o reino um caos, nas mãos de pessoas não confiáveis, se isola nas montanhas, e uma das frases da música que ela canta é “That perfect girl is gone”, ou seja “Eu não sou mais aquela garota perfeita”, traduzindo o sentido geral. Por que isso? Por que ela era vista como perfeita e responsável, e etc., mas desde quando ela era? Ficar trancada no quarto a vida toda é ser perfeita? E se fosse, por que ser “perfeita” é ruim? É claro, não é bom ser vista como algo que você não é, mas ser responsável e dar o melhor de si nunca vai ser algo ruim. Ou seja, ela devia se esforçar para ser melhor. E não se esconder e mandar a própria irmã embora quando esta vai atrás dela. Agora, se lembram da frase sobre o Jack que eu grifei no começo? Ele “VOLTA PARA CONSERTAR A PRÓPRIA CAGADA”!! Exatamente o oposto do que a Elsa faz! Entendem? E também, eu disse antes que ele SE CULPA antes de ficar otimista de novo. Mas, vejam bem, a culpa não foi só dele. Ele avisou aos amigos como proceder corretamente (não vou dizer em que, para evitar spoillers, então assistam ao filme), mas mesmo assim não ficou reclamando coisas do tipo “Por que eles fizeram isso?”. Na verdade, algumas frases que ele canta são “O que foi que eu fiz? Como pude ser tão cego? Estraguei tudo!”. E a Elsa, ao invés de reconhecer que não pôde controlar as próprias habilidades em, vamos chutar, doze anos, se sente oprimida, o que se evidencia em frases da música como “Can’t hold me back anymore” (não podem mais me controlar). Do tipo: “minha filha, ninguém estava te controlando, você é que deveria controlar a si mesma”. Compreendem? Em matéria de moralidade e ética, eu preferiria mil vezes que meus filhos (futuros) assistissem a’O Estranho Mundo de Jack! E daí que ele é uma caveira? Caveiras só assustarão seus filhos se você educá-los com a ideia de que elas são assustadoras! E isso me lembra de mais um ponto positivo em relação ao filme:
         Os heróis da história são incomuns! Jack é uma caveira, Sally é uma boneca de trapos, mas eles são criaturas boas, só querem o melhor! É uma quebra do paradigma de príncipes bonitões e princesinhas frágeis (por sinal, Sally é a criatura mais sensata do filme. Está longe de ser uma mocinha indefesa)
         Em relação a esse filme, eu só tenho mais uma coisa a dizer: PARABÉNS, TIM BURTON!!
         Espero que todos tenham entendido aonde eu quis chegar com esse texto. NÃO ESTOU PEDINDO A NINGUÉM PARA PARAR DE ASSISTIR A FROZEN! Mas, cuidado com os preconceitos e visões estereotipadas que passam aos seus filhos, principalmente. É bom para crianças conhecerem coisas diferentes, e elas vão ser pessoas bem melhor-sucedidas se não encararem a morte, por exemplo, como algo necessariamente assustador e deprimente (por isso recomendo, também, o filme “A Noiva Cadáver”).
         Obrigada por lerem esse post, e se sintam livres para expressarem suas opiniões nos comentários (por favor, evitem falta de respeito).



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